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Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

Nenhum filme de guerra chegará aos pés de Vá e Veja. Falo com categoria, sem medo de ser feliz, pois nenhuma produção jamais conseguirá carregar dentro de si, toda a podridão do homem enquanto ser social, ou mesmo Ser Humano. E com toda certeza, não sairá de sua mente tão facilmente. Está preparado?

Nem O Resgate do Soldado Ryan, 1998, de Steven Spielberg, ou Nascido Para Matar, 1987, de Stanley Kubrick, chegarão aos pés da podridão que verte de Vá e Veja, 1985, do diretor soviético Elem Klimov. Jamais! Falo com categoria, sabendo que não erro em minha afirmação! Vá e Veja tem um recorte interessante: a invasão Nazista à Bielorrússia, em 1943. Só com esta informação, já dá pra sentir que o buraco é um pouco mais embaixo, né?

Leia também: Noite e Neblina: Para entender o Nazismo

Acompanhamos ao longo das suas duas horas e tantos minutos de duração, o menino Floria, de uma pequena aldeia local, que se junta ao exército soviético de resistência contra a invasão Nazista que está a chegar. Apesar de sua mãe lhe suplicar para não ir, o adolescente, inconsequente como todos os adolescentes do mundo, acha que pode ser de grande valia para a resistência. É aqui que percebemos que o pobre garoto fez a pior decisão possível. E é a partir daqui que começamos a sentir muito tanto por ele, quanto por sua família e aldeia. A dor da súplica de sua mãe ecoa em nossas mentes durante o longa, fazendo parecer que nós, os espectadores, somos cúmplices de levarmos Floria para a frente de batalha. Existe um aperto no peito que só aumenta. Elem Klimov já consegue deixar o clima absurdamente péssimo — e este é só o começo.

Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

Para as várias produções cinematográficas, principalmente as de Hollywood, impera a famosa jornada do herói e o unânime happy ending. Neste caso, todavia, a jornada de Floria não é sobre adentrar em si mesmo, vencer distâncias até aprender a ser um verdadeiro herói e voltar ao mundo comum melhor que saiu. Não. A cada minuto, Floria desce ao inferno dos homens. Será que sua jornada se compara à de Dante? Acho que não, pois nada pode ser mais cruel que a humanidade transformada em um animal de grande poder bélico e recheado do mais puro ódio. Destaco, sendo assim, preservando os incautos de possíveis spoilers, algumas cenas que nos torna cada vez menos esperançosos em nossa espécie.

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Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

A primeira, a famosa cena do pântano, cuja composição cinematográfica é de se perturbar o mais são dos homens. Floria e Glasha, uma amiga e possível Virgílio (?), atravessam um mar de lama misturado com gritos, berros de animais, barulhos indecifráveis e música clássica. É esta bagunça sensorial que os homens passam nas guerras. E é desta forma que aquele aperto do coração que já estávamos, se transforma em choro preso no estômago. É assim, de certo modo, misturado a um lirismo e poesia, que o filme se mostra estranho e, em alguns momentos, belo. Não entendemos nada. Mas quem disse que em uma guerra, é preciso entender alguma coisa?

Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

Klimov nos deixa atordoados sen mesmo termos visto os horrores gráficos que o longa está a nos reservar. A próxima cena, esta sim, super gráfica, nos mostra um senhor que foi brutalmente torturado e ferido pelos Nazistas. Poderia aqui lhe dizer o que foi, mas acho que é minha missão te deixar descobrir por conta, leitor. Claro, porém, que vou tentar descrever não a cena, mas a feição de Floria, que não esconde em nenhum momento seu espanto, medo e desespero. O homem, apesar de muito ferido, ainda consegue falar. Segundo ele, pediu ao exército Nazista que o matasse. Imagine aí, meu amigo, a qual tipo de brutalidade que este homem foi submetido. Quem clama pela própria morte? Alguém que sabe que está no inferno! Floria, depois de ver seu estado, foge. Nos deixa, mais uma vez, com um nó cego em nossas gargantas. Vômito, para os sensíveis. Indignação para os conscientes. Inspiração para os fascistas de hoje em dia…

Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

A última cena a ser destacada, faz parte dos momentos finais do longa. Presenciamos o exercito Nazista invadindo uma aldeia e aterrorizando das piores formas possíveis seus moradores. Direitos humanos? Nazista desconhece o significado. Há, durante quase trinta minutos, uma verdadeira coleção de show de horrores. A morte, perto disso, como ser queimado vivo, é uma benção. E é no meio deste caos que Floria se encontra. O ator Alexei Krawtschenko, com 16 à época, exprime com veracidade espanto, medo e desespero de forma gradativa. No início, o vemos esperançoso com a guerra. Porém, assim que ele adentra a frente de batalha, podridão humana, fica com as linhas de expressões mais marcadas, tal como as olheiras mais roxas, os cabelos mais brancos e os lábios machucados. Todo aquele clima de guerra contribuí para que a sanidade vaze das nossas cabeças, deixando-nos áridos, sem vida.

Vá e Veja: amor ao próximo tem limite?

Chegamos no momento de responder ao título: amor ao próximo tem limite? Floria irá nos dizer que não. Não há limites para o amor ao próximo. Mas mesmo com nazistas? Voltemos, para responder à indagação, aos momentos finais do filme. Depois de Floria ter ido e visto o homem tal como é, um animal sedento por sangue e desgraça, ele se depara com um retrato de Adolf Hitler. Munido de um Rifle Semi automático SVT 40, Floria começa a atirar no ditador. Ou melhor, em sua foto.

Experimentalista, Klimov faz uma montagem interessante aqui: a cada vez que Floria atira em Hitler, vemos vídeos reais de passagens da ascensão Nazista de trás pra frente. Como se, a cada tiro, estivéssemos voltando no tempo. Floria, sendo assim, atira tanto e tanto, que volta à infância de Hitler. Vemos o ditador bebê, sentado no colo de sua mãe. Existe, portanto, um impasse interessante: se Floria atirar em Hitler criança, ele se igualará aos invasores Nazistas que há pouco mataram de forma brutal um vilarejo inteiro na base do fogo e desdém. Porém, se ele matar o bebê, pode, de forma simbólica, claro, impedir que toda aquela crueldade não ocorra. Matar uma criança? Ou deixar vivo o mais sanguinário dos ditadores? Floria, talvez seguindo preceitos cristãos – ou simplesmente o bom senso, por mais amargo que seja -, não atira. Ele não quer se igualar aos nazistas, mesmo tendo todos os motivos para querer vingança. O melhor a se fazer, em seu caso, portanto, é continuar a lutar junto da resistência contra o Nazismo. Talvez seja este o maior ato de amor ao próximo que poderia tomar: sacrificar-se na guerra em nome de seus compatriotas, sejam vivos ou mortos.

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Onde assistir? MUBI

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Pedro Olivato Montanaro, formado em Rádio e Televisão pela Universidade Anhembi Morumbi. Redator freelancer do Portal Cineramaclube. Cinéfilo de corpo e alma.
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