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Mães do Brasil: um retrato da maternidade nos filmes brasileiros

Com a chegada do Dia das Mães, as pessoas em geral voltam as suas atenções para estas mulheres especiais de suas vidas. Seja em um encontro pessoal para um almoço, levando um presente, uma ligação para quem mora distante ou mesmo para quem já não tem sua mãe presente, mas deseja fazer uma homenagem, a data é sempre um momento especial para muitas famílias.

Partindo do ponto de que as pessoas e famílias são diferentes em suas essências, no jeito de demonstrar afeto e se relacionar, escolhemos alguns filmes brasileiros que retratam a figura da mãe de diferentes formas para mostrar que mãe é mãe independente da forma como escolhe vivenciar a maternidade.

Foram escolhidos três filmes que destacam o papel da mãe: Como Nossos Pais (2017, de Laís Bodanzky), Que Horas Ela Volta? (2015, de Anna Muylaert) e Benzinho (2018, de Gustavo Pizzi). A escolha se deu principalmente por conta da distinção de classe, vivências passadas e o recorte em que a personagem está inserida durante o filme, o que pode ser capaz de influenciar diretamente na forma de enxergar o mundo e por consequência a forma que será experimentada a maternidade.

Como nossos pais ou diferente deles?
Mães do Brasil: um retrato da maternidade nos filmes brasileiros
Rosa (Maria Ribeiro) e Clarice (Clarisse Abujamra) em Como Nossos Pais | Globo Filmes/Gullane Filmes

O filme Como Nossos Pais oferece um panorama sobre a vida de Rosa (Maria Ribeiro), uma jornalista que trabalha em um empresa de aço, mas que sonha em viver sua verdadeira paixão: ser dramaturga. A mulher tem ainda outro emprego em tempo integral: ser mãe. Com um marido que está sempre viajando e que não lhe dá auxilio nas tarefas necessárias da casa e no cuidado com as duas filhas, a mulher vive uma rotina estressante e desafiadora para manter o equilíbrio entre tantas tarefas.

Rosa, que é filha de dois intelectuais da classe média brasileira, tem uma relação tensa com a mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), e a obra é interessante justamente por mostrar paralelamente os conflitos entre Rosa e a mãe, que tem um estilo de vida totalmente diferente do que a agitada filha gostaria, mas que é uma peça importante trazendo reflexões para sua vida; e entre Rosa e as duas filhas, que estão entrando na fase da pré-adolescência e naturalmente passam a ter suas próprias vontades e questionar os pais, situação que causa alguns conflitos.

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Clarice é uma personagem chave na história por conter dois segredos que mudarão totalmente a vida de Rosa: o primeiro é a revelação logo no início do filme de que Rosa na verdade não é filha do homem que a criou como pai, mas de um político importante que vive em Brasília. Mas a segunda revelação é ainda mais importante para o recorte deste artigo: Clara possui um câncer avançado em decorrência do tabagismo e está a beira da morte.

A descoberta da doença ocorre na parte final do filme, mas ali a mãe já tinha cumprido o seu propósito para com a filha, a orientando pontualmente em questões que ela mesma gostaria de ter emergido, uma vez que também foi uma mulher sofrida em um casamento sem equidade. Revelou Clarisse em uma entrevista na época para o site Papo de Cinema: “Pra dizer a verdade, acho que as pessoas ficaram um pouco nessa questão da força da personagem, e esqueceram que ela não é só aquilo, aquele momento. Ela é uma mulher vivida e sofrida. Passou por um casamento que não deu certo, teve um amante que… nem amante foi, ela mesmo diz, “tive uma trepada com um cara em Cuba”. Ponto. E mesmo assim precisou segurar isso por sei lá quanto tempo. E por mais avançada que ela seja, isso tudo aconteceu em uma outra época, milhões de anos atrás. Então, acho que a força dessa mulher traz junto o preço que as mulheres ainda têm que pagar até hoje, de ter a culpa do mundo nas costas. Por mais forte que ela pareça, ela também se sente culpada. Tem essa filha, que quer defender, mesmo que aos trancos e barrancos, com a personalidade dela. Até porque ser da maneira que ela é não lhe foi fácil.

Em termos gerais, a necessidade de querer falar por tanto tempo, mas a impossibilidade de poder, uma vez que precisava criar os filhos de uma forma estável junto com Homero, seu marido por muitos anos, foi a escolha feita por Clarisse, mas que a machucou por dentro até o momento em que acreditou que precisava falar. E é esse desejo que ela tenta transmitir para a filha: fale, viva, mesmo que isso cause uma reviravolta e instabilidade em sua vida e em sua família.

O longa-metragem se encerra com uma Rosa mais feliz, após o fim do relacionamento com Dado e novas descobertas que fez para tirar o imenso peso que sentia, tudo isso graças a uma revelação feita pela mãe que também precisava tirar de si um grande fardo. A produção é uma análise profunda dos sacrifícios que mães fazem por suas famílias, muitas vezes se doando totalmente para garantir que os filhos possam crescer de forma menos atribulada e terem uma boa vida. Embora Clarice seja uma mãe que não está dentro do estereótipo visto pela sociedade como o padrão, ela cuida da filha de sua própria forma, a ajudando a encontrar o seu caminho e lhe oferecendo uma visão de como lidar com as suas duas filhas.

Retrato de uma ausência ou de uma necessidade?
Mães do Brasil: um retrato da maternidade nos filmes brasileiros
Val (Regina Cazé) e Jéssica (Camila Márdila) em cena de Que Horas Ela Volta? | África Filmes/Globo Filmes

O filme “Que Horas Ela Volta?” é uma produção que gira em torno da vida da doméstica Val (Regina Cazé), uma pernambucana que decidiu vir para São Paulo tentar melhores condições de vida para ela e sua família. A mulher então vive com uma família onde trabalha em tempo integral, cuidando da casa e de Fabinho, filho dos patrões.

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O recorte do filme ocorre quando a filha de Val, que cresceu no Pernambuco, distante da mãe, deseja vir para São Paulo para prestar vestibular. Os patrões compadecidos com a história da família aceitam que a garota venha morar no quartinho dos fundos junto com a mãe, mas diferente de Val, Jéssica (Camila Márdila) não é tão subserviente como a sua mãe aprendeu a ser, causando alguns conflitos na mansão.

Duas grandes questões estão presentes na narrativa: a primeira é a relação de Val e Fabinho, que foi criado pela mulher como uma verdadeira mãe, uma vez que a sua própria mãe é retratada como uma pessoa cheia de compromissos e que nunca preencheu a necessidade de carinho e amor que o garoto tinha. Esse papel foi cumprido pela doméstica e o próprio garoto a enxerga deste jeito. Prova disso é quando Val decide ir embora da casa da família gerando um sentimento de rompimento desse laço, questão muito mais importante para Fabinho do que para os seus pais, que veem Val somente como uma prestadora de serviços que está com eles há muitos anos.

O segundo ponto é a relação de Val e Jéssica, que tem certo ressentimento com a mãe por não ter sido criada por ela. Isso se reflete principalmente na diferença geracional e na forma de enxergar a vida, enquanto Val mantinha certo temor em relação aos patrões, acatando algumas situações que beiravam o absurdo, Jéssica é mais questionadora e não aceita determinadas situações sem expor seu ponto de vista.

Cabe ressaltar que embora seja compreensível a chateação de Jéssica, tudo que Val fez foi para que a filha pudesse ter uma vida melhor. Centenas e centenas de mulheres precisaram e precisam migrar todos os anos para garantir o sustento de suas famílias, e colaboram com isto diversas causas: homens que têm um filho e desaparecem deixando a mãe e a criança desassistidas, a falta de colaboração governamental para pessoas desfavorecidas financeiramente, entre outras razões.

No final do filme, Val tem a chance de se redimir, quando Jéssica, que consegue passar no vestibular, engravida de uma criança e Val se demite para cuidar do neto e garantir que sua filha possa estudar. A pernambucana pode ser vista como um retrato de diversas mulheres que não são mães biológicas, mas que são mães por conta do amor, do carinho e do cuidado com uma criança, garantindo que ela tenha o suporte necessário para crescer e viver.

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Meu filho, meu benzinho
Mães do Brasil: um retrato da maternidade nos filmes brasileiros
Irene (Karine Teles) em cena de Benzinho | Bubbles Project/Baleia Filmes

Provavelmente o filme menos conhecido desse trio, Benzinho retrata a história de Irene (Karine Teles), uma mãe de 4 filhos que está tentando terminar o ensino médio enquanto cuida de sua família. O conflito do longa-metragem é gerado quando seu filho mais velho, de 16 anos de idade, destaque do time de handebol do colégio, recebe um convite para ir estudar e jogar na Alemanha. Feliz com a oportunidade que o filho recebeu, Irene terá pouco tempo para se conformar com a partida do filho.

As demandas do dia a dia são alucinantes na vida de Irene: o negócio de seu marido Klaus (Otávio Müller) vai mal, a obrigando a dar um jeito de ter uma renda suplementar, os problemas financeiros geram instantaneamente uma reação nos outros três filhos, que se veem mais distantes da mãe. Somado a isso, a sua irmã (Adriana Esteves) está sendo agredida pelo marido e cabe a Irene tentar ajudar na situação.

Tudo parece muito instável na vida de Irene, e talvez essa seja a maior dificuldade na vida da mulher para lidar com a partida de Fernando (Konstantinos Sarris), já que ela não tem nem mesmo tempo de parar e absorver os acontecimentos da vida do filho, e como uma mãe que tem uma relação próxima, essa tarefa se torna ainda mais complexa.

A conhecida “síndrome do ninho vazio” é uma situação associada a diversos pais (não necessariamente ocorre somente com a mãe), que tem dificuldades em superar a saída de casa dos filhos. Este é um processo natural, uma vez que em diversas famílias os pais dedicam boa parte da vida e dão razão a sua existência a partir da relação com seus filhos, e embora Irene tenha mais três filhos, a situação com Fernando é quase um presságio do que pode vir no futuro.

O abafamento da felicidade pelo sucesso filho com tantos problemas a sua volta é talvez a reflexão mais interessante do filme, colocando ela em uma posição extremamente humanizada em que mesmo sendo uma mãe apegada e amorosa, também pode se sentir confusa e angustiada por pensar em si própria e em sua felicidade em detrimento de pensar primeiro no coletivo.

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Mães são mulheres reais

Embora a sociedade tenha perpetuado por muitos anos um estereótipo de ações e padrões sobre o que seria uma boa e uma má mãe, alguns filmes, e não devemos deixar de notar que em sua grande maioria são produções dirigidas por mulheres, tem ajudado a difundir a ideia que mães são, afinal, mulheres comuns como quaisquer outras, que tem sonhos, necessidades, erros, acertos e são parte de uma sociedade viva e flexível, que vai se adequando a cada época de acordo com novas práticas.

Ser mãe vai muito além de gerar uma criança, e claro que condições financeiras, regionais e familiares ajudam muito na vivência da maternidade, mas sobretudo é necessário expressar que essa condição é um desafio e que ninguém nasce formada em ser mãe, não existe um manual para direcionar e ensinar, somente quem vive é capaz de ir se adequando de acordo com a sua própria experiência para ser o melhor que puder ser.

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Paulista, 23 anos, bacharel em Cinema e Audiovisual e estudante de Publicidade.
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