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Crítica | O Poço – A Apoteose do Comportamento Humano

Produção espanhola original da Netflix, “O Poço” – dirigido pelo estreante Galder Gaztelu-Urrutia – surge como uma crítica social oportuna e arrasta questões filosóficas e socioculturais em uma trama fictícia que, na verdade, não foge muito à realidade.

O Poço” conta a história de uma grande prisão em um futuro distópico. Distribuídos em uma torre, os reclusos são mantidos em um cárcere vertical onde vivem dois por andar. Conectados por um grande buraco central, os presos são alimentados por meio de uma plataforma que desce gradualmente os níveis da instalação. O sistema, na teoria justo, revela grandes problemas da vida na sociedade. Oferecendo, inicialmente, comida suficiente para alimentar todos os detentos da prisão, uma luta por sobrevivência tende a se iniciar quando os níveis superiores começam a levar muito mais comida do que o realmente necessário.

O Poço
O Poço / Netflix

No filme, os olhos do espectador são os olhos de Goreng (Ivan Massagué), o protagonista que, voluntariamente, entrou na prisão. Dentro do Poço, Goreng tem contato com o seu primeiro companheiro de cela e, assim, passa a conhecer a rotina do Centro Vertical de Autogestão – como definido pela administração local. Isolados do mundo e confinados em uma cela quadrangular, a rotina dos detentos – além de tentar sobreviver a contratempos impostos por outros presos – é esperar pela plataforma de comida a fim de realizar a única refeição do dia.

Destroçada pelos indivíduos dos níveis superiores, a Plataforma costuma chegar quase sem mantimentos para os andares mais baixos e vazia para os últimos. Quanto mais baixo, mais próximo da morte e da insanidade. Contudo, a mística da estrutura da prisão possibilita a mudança mensal dos presos de andar, redistribuindo-os aleatoriamente. Dessa forma, todos os prisioneiros são testados nas mais diversas situações – condenados do nível 200 podem ser realocados para o nível 5, por exemplo – e, assim, podem gozar do acesso prévio à comida que lhes foi anteriormente negada.

O Poço
O Poço / Netflix

Sem nenhum beneficiado pela lógica da prisão vertical, a experiência do Poço é clara e objetiva ao demonstrar que os detentos de andares inferiores, ao serem realocados para cima, perpetuam o comportamento egoísta dos presos da instalação e procuram manter tudo para si – de forma a sempre faltar alimento para grande parte da população da estrutura. Ninguém é beneficiado, mas todos resistem às mudanças e se determinam a ter o máximo que podem enquanto têm o acesso prévio à Plataforma. Quem tem em abundância quer sempre mais, enquanto os que nada têm recorrem, muitas vezes, ao canibalismo. E, mesmo quando Goreng, o protagonista, se determina a mudar o modo de funcionamento do Poço, as “forças socioculturais” em ação tratam de constantemente derrubá-lo.

Existem três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo e as que caem”. A pirâmide social desenhada pelo Poço é bastante conhecida e a metáfora utilizada para representar os tempos atuais é forte. O filme disseca a estrutura socioeconômica do capitalismo e utiliza uma narrativa categórica para permear as características do sistema vigente – no qual os indivíduos do topo forçam as camadas mais baixas a, literalmente, se matarem por qualquer pedaço de comida ou fio de esperança. A condição humana e as relações de poder são desnudadas e colocadas à prova em um verdadeiro abismo social que faz aflorar o estado de natureza do homem e que bestializa cada ação do ser que se mostra egoísta frente às adversidades.

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O Poço
O Poço / Netflix

“O Poço” é uma produção escapista, ficcional e simbólica, de modo que procurar sentido em cada ação do filme é uma tarefa incoerente. O surrealismo da trama, por conseguinte, é completamente horripilante quando o espectador, sob uma avalanche de emoções, consegue enxergar a própria realidade no cotidiano do Centro Vertical de Autogestão. Os devaneios presentes no filme são consideravelmente parecidos com a sociedade contemporânea e é por isso que o filme é um sucesso. A forma como tudo é contado é eficaz e implacável, de forma que um soco no estômago doeria menos.

Nada em O Poço” é sutil. Porém, os tempos modernos também não o são. O pesadelo minimalista e imprevisível não hesita em mostrar a pior faceta do ser humano e mergulha fundo na tarefa de abordar as relações atuais. O horror é constante na produção de Galder Gaztelu-Urrutia e o ensinamento geral é evidente. Porém, assim como no final emblemático e metafórico do filme, a mensagem subliminar para o Poço e toda a sociedade é clara: esperança.

Nota: 4,5/5

Assista ao trailer:

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Estudante de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense. 20 anos.
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