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Crítica | Nanatsu no Taizai – 1ª e 2ª Temporada

Concedendo vida aos “Pecados” singularizados no mangá, o estúdio A-1 Pictures adaptou com esmero o anime de Nanatsu no Taizai. Pecando em alguns momentos, acertando em outros, as duas primeiras temporadas, disponíveis na Netflix, consolidam personagens cativantes que despertam nossa curiosidade.

Nossa mente faz associações quase que involuntariamente, e isso não é diferente com o termo “anime”, que na maioria das vezes é vinculado a outras duas palavras: lutas épicas. E isso faz parte da experiência, pois uma grande quantidade de animações famosas são catalogadas na memória do público por suas batalhas inesquecíveis. Todavia, um roteiro que equilibra “calmaria” e “frenesi”, sem esquecer-se do desenvolvimento dos personagens, tem mais chances de ocupar espaço no coração dos fãs. É isso que Nanatsu no Taizai, também conhecido como The Seven Deadly Sins, se propõe a fazer. Mas, será que ele consegue?

Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

Sobre Nanatsu no Taizai

Os “Sete Pecados Capitais” são um grupo maligno de cavaleiros que conspiraram para derrubar o Reino de Britânia. Supostamente erradicados pelos Cavaleiros Sagrados, ainda existem rumores de que eles estão vivos. Dez anos depois, os Cavaleiros Sagrados realizaram um golpe de estado e assassinam o rei, tornando-se os novos e tiranos governantes do reino. Elizabeth, a terceira filha do rei, sai em uma jornada para encontrar os Sete Pecados Capitais, e recrutá-los para que possam ajudar a tomar o reino de volta.

A narrativa

Diferentes mídias já apresentaram uma releitura do conceito acerca dos 7 pecados capitais. No âmbito cinematográfico, o impactante Seven – Os 7 Crimes Capitais, de David Fincher, apresentou a jornada de dois investigadores em busca de um serial killer que assassinava brutalmente suas vítimas se inspirando nos pecados. Na teledramaturgia brasileira, o autor Walcyr Carrasco também contou uma história pautada nessa ideia, através da novela Sete Pecados, exibida na Rede Globo.

Nanatsu no Taizai ambientou essa concepção em uma fictícia “Europa medieval”, alimentando-se da fantasia, lendas e mitologias para construir cidades, personagens e conflitos. Com fortes aspirações bíblicas, o enredo explora a personificação das doutrinas e seguimentos religiosos, nada com grande profundidade, porém com uma excepcional criatividade.

Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

A elaboração de mundo feita é de encher os olhos, não é à toa que essa é uma das principais “colas” que une dinâmica e desenvolvimento. Quase tudo é novidade, e quando novos conceitos são apresentados, a trama não se prende muito a explicações, entretanto, a partir do episódio 12 da primeira temporada algo muda, infelizmente, e momentos didáticos ocupam um infame lugar na narração. Nada que desrespeite nosso senso de aprendizagem natural sobre a história, mas que pode causar diferentes níveis de incômodo.

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Há um humor que funciona muito bem em Nanatsu no Taizai, um peso necessário para balancear os dramas e o sentimento de urgência que permeia alguns episódios. É interessante observar como o roteiro vai além dos protagonistas, colocando sobre os ombros dos coadjuvantes uma importância digna de um personagem principal. Um ponto positivo, se compararmos outras produções que esquecem seus coadjuvantes (cof, cof, Naruto!).

Os personagens

A curiosidade despertada por Nanatsu no Taizai é uma âncora, capaz de estacionar nossa atenção em enredos primorosos, que sabem usá-la ao seu favor, brincando com expectativas e “frustrações propositais”. É engraçado citar esse último termo, pois os primeiros episódios servem para embarcarmos na rotina de um mundo movido pelas relações entre seres humanos, divinos, demoníacos e fantásticos. Usando cartazes de “procura-se” para apresentar os protagonistas, a narrativa cria alguns “pré-conceitos” sobre essas figuras, para depois desfazer tudo, causando surpresa, seja pelo nível de poder, pela veia cômica ou pelo background dramático.

Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

Quando um anime trabalha grupos, como em Digimon e os seus DigiEscolhidos, é preciso ceder tempo de tela para que o público se acostume e crie empatia por cada personagem. Este é um mérito conquistado por Nanatsu no Taizai, que não tem pressa para exibir as principais peças desse embate fantasioso. Ainda que a coroa do protagonismo pisque em cima da cabeça do Meliodas (que representa o Pecado da Ira), a trama não se prende somente a ele, usando-o como um “guia”, visto que é pelas mãos dele que somos conduzidos adentro de conspirações e segredos que afetam tudo e todos.

Ban (o Pecado da Ganância) é daqueles que te conquista logo de cara! Prepotente e carismático na medida “certa”, seu arco vai do personagem valentão para o homem que adquire a imortalidade, numa jornada que envolve amor, amizade e paternidade. King (encarnação do Pecado da Preguiça) é uma incógnita, a princípio, porém a trama vai revelando mais sobre ele, a medida que apresenta a cultura do Reino das Fadas. Quem simboliza o Pecado da Inveja é Diane, uma gigante de personalidade instável, cujo sentimentos são proporcionais ao seu tamanho, mas tudo não passa de uma “casca”.

Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

Representando o Pecado da Luxúria, Gowther é típico personagem que parece um enigma, sofrendo drásticas transformações ao longo da 1ª e 2ª temporada. Nada sobre ele faz sentido e com o passar do tempo revelações dramáticas constroem sua personalidade, repleta de falhas e questionamentos; aspectos que fazem de Gowther o ser mais complexo do anime. Merlin, também conhecida com o Pecado da Gula, é a face mágica do time de guerreiros. Guardada a “sete chaves” pelo roteiro, sua aparição é sempre pontual e gera momentos decisivos na trama.

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E temos ele, a figura sinônimo de fascínio: Escanor — O Pecado do Orgulho. Sua individualidade é composta por ideias opostas, o que gera um desenvolvimento interessante. Quase um paradoxo ambulante, este é um personagem que conquista gargalhadas e magnetiza afinidades. E por último, mas não menos importante, está Elizabeth, princesa de Liones, desempenhando o olhar do público diante do desconhecido. Logo, o enredo coloca na jornada de Elizabeth mais que “um vislumbre de quem está de fora“, pois aos poucos ela também se torna um pilar crucial para a história.

Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

As temporadas

O primeiro ano do anime não foge da tradição presente em outra obras. A “fachada introdutória” é vista de longe, e sentimos que tudo tem um gosto de “apresentação”. Heróis, vilões e o próprio mundo de Nanatsu no Taizai demoram um pouco para romper a bolha inaugural. Alguns mistérios, às vezes, podem soar “antiquados”, pois fica nítido quem ou o que está por trás de algumas ações, e o roteiro peca, insistentemente, ao sustentar certos “pontos de interrogação” por tempo demais. Em contrapartida, cada episódio ousa pincelar futuras ameaças, nos dando peças de um quebra-cabeça cativante.

Ainda que apresente um desfecho de temporada mediano, o primeiro ciclo cumpre bem seu propósito: nos situar no espaço, no tempo e estimular nossa empatia pelos protagonistas. Ainda que alguns rostos fiquem guardados para uma futura temporada, as cenas pós-créditos riem na cara do nosso entusiamo, igualmente um filme da Marvel, entende?

Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

É a segunda temporada a detentora dos melhores arcos. Aqui, as reviravoltas são feitas a conta-gotas, dosando ação e revelação, enquanto acompanhamos os personagens, ora reunidos, ora separados, em trajetórias muito bem amarradas. Se por um lado temos os Sete Pecados Capitais representados na pele dos protagonista, pelo outro, temos os 10 Mandamentos destinados ao papel de vilões. Uma inversão intrigante, certamente, mas é preciso falar que “vilão” e “herói” são palavras que não alcançam o elenco deste anime, pois todos passam um bom tempo no mundo cinza, abraçando atos que vão muito além da vilania e do heroísmo.

Há algo que causa incômodo durante as duas primeiras temporadas. Existe uma sensação de que muitas cenas conseguiriam ir além, no quesito ação e drama. Predomina um sentimento amargo, uma quase insatisfação, de que as lutas poderiam ser melhores, de que os eventos dramáticos deveriam ir mais a fundo. Não que o desenvolvimento seja superficial, mas ele nunca atinge o status de glorificação, ficando no meio do caminho.

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Nanatsu no Taizai - 1ª e 2ª Temporada
Nanatsu no Taizai / A-1 Pictures / Netflix

A pancadaria desenfreada, daquelas que te prende na tela, surge como um bônus quando atrelada a uma jornada bem construída. Basta olhar para produções atuais como o recente Kimetsu no Yaiba e o colossal Shingeki no Kiojin. É preciso trabalhar um elemento sem jamais esquecer-se do outro, e Nanatsu no Taizai consegue essa proeza, ainda que tenha alguns tropeços na 1ª e 2ª temporada. Para os veteranos, que estão cansados de alguns clichês, talvez esta não seja uma opção sensata, visto que, tanto a atmosfera, quanto alguns conceitos lembram muito outras produções animadas. Em compensação, essa é uma obra que encantará os novatos que procuram algo que derive da Cultura Pop oriental.

Em suma, a versão nipônica dos Sete Pecados Capitais, contada pelo enredo de Nanatsu no Taizai, possui altos e baixos, mas também detém autenticidade. Ainda que em alguns momentos falte “sal” é um arroz com feijão bem feito.

Nota: 3,5/5

Assista ao trailer:

Veja também: Crítica | Bob Esponja: O Incrível Resgate.

About author
Me chamo Mayko Martins. Estudante de Publicidade e Propaganda. Sou apaixonado por cinema, apesar de nunca acertar um bolão do Oscar! Minha nova paixão é o teatro, motivo pelo qual faço parte do Grupo Teatro Mix. Estou “preso” a muitas séries, mas a culpa de eu não terminar nenhuma é da Shonda Rhimes – criadora de How To Get Away With Murder, que me fez rever as temporadas várias e várias vezes. E, estou me recuperando do final da terceira temporada de Shingeki no Kiojin... Ah, quase esqueci, eu amo escrever! Por isso sou autor lá nas terras do Wattpad com o livro "Fruto Podre".
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